quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Ramalhete
Eu queria um pouco menos de peso nos ombros, um pouco menos de ausências e despedidas. Eu queria guardar aqueles abraços apertados como preciosidades sinceras, que não perdem seu brilho e nem se esvanecem com o tempo. Queria que os risos sempre sufocassem os choros e os reencontros superassem a dor do adeus. Eu queria soluções simples para problemas complexos, reconciliações de quem nunca deveria ter se separado, beijos e abraços resgatados de um tempo que já não existe mais - e que eu pouco lembro de ver quando criança. Queria o poder inquestionável de fazer voltar o tempo para desfazer arrependimentos, rasgar as páginas da memória que insistem em recordar palavras que nunca deveriam ter sido ditas. Queria estar pronta para ser a pessoa que sempre pensei que seria.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Rabiscos sinceros

Encontro um velho caderno e rabisco um fino traço que inicia o contorno de um desenho. Um traço leve e delicado, que delineia um olhar perdido no infinito, com um sorriso gostoso que transborda uma alegria singela e estranhamente infantil. E mesmo que o papel não mostre, os olhos brilham o brilho de uma estrela cadente - daquele jeitinho assim deslumbrado e incontido. Como uma criança que vê em suas mãos um tesouro que tanto esperava - ou o idoso que revê o sorriso carinhoso de uma criança que um dia já foi sua. Os lábios delineiam um sorriso que se abre sem fim, sem hora pra vencer, sem data para se extinguir, congelado no tempo e no espaço de um caderno cujas folhas amareladas um dia já abrigaram os segredos infinitesimais de uma conta de matemática ou de uma velha aula de ciências.
Assim, tão simples, esse breve rabisco feito por mãos bem pouco hábeis com um desgastado lápis preto ganhou forma mais na imaginação do que no papel. E o conjunto desregrado parece gerar uma alegria marota insistente, crivada de inocência e do doce não-saber de quem vive no mundo da lua. Ai, como é bom viver no mundo da lua às vezes.
domingo, 26 de julho de 2009
Retrato em preto e branco

Se fosse cuidadosamente fazer uma fotografia neste momento, ela seria em preto e branco. E, mesmo que fosse de um sujeito qualquer, mostraria as rugas do meu rosto e da minha alma. Revelaria as minhas linhas de expressão, os sorrisos já desfeitos, os risos já sem eco ou som, as lágrimas secas que um dia passaram pela minha pele e morreram no contorno dos lábios. Encerraria em si mesma o choro e a reza, a desilusão e a esperança, a força dos anos que aos poucos embranquecem meus cabelos e desfiam as linhas secas de minhas mãos.
Mesmo que a imagem não fosse do meu rosto, ainda assim revelaria um peso estranho, daquele tipo que se sente e não se explica; que estrangula e rasga o peito, revelando contornos fugazes, sombrios, confusos e esparsos. Sem cores, sem manchas, sem desvios. Clara e crua. Escura e cruel.
Se fosse fazer uma fotografia neste momento, ela seria densa, mesmo que refletisse a leveza de um espírito. Estaria carregada de solidão e de tristeza, ainda que acompanhada de pitadas de doces alegrias e saudosas recordações. Um momento congelado, teimoso na ânsia de não ser deixado para trás. Ponto a ponto, detalhe a detalhe, teria uma imagem aprisionada em um tempo que não volta mais, que não admite reconstrução ou perdão, que foi abandonada como uma linha perdida em uma teia imensa.
Se fosse fazer uma fotografia neste instante, o preto e o branco aos poucos fundir-se-iam, construindo pequenas nuances de uma tristeza cinza.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Um espelho em um dia ensolarado
O reflexo me persegue no canto da cama; um rastro de sol me lembrando que o dia aqueceu a cidade e aconchegou a frieza noturna. Aqui dentro, a mesma coberta de ontem, o mesmo par de meias, as luvas brancas a aquecer as mãos. Na TV, um pouco mais do mesmo. Os ponteiros percorrem o velho relógio de parede, bem devagar, quase como se estivessem saboreando um delicioso petit gateau. Ainda assim, o fato de estar só não me assusta. Nem me entedia.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Possessividade

Há coisas que são minhas. Ponto. Únicas, exclusivas, íntimas. Meu pensamento, meu conhecimento, minhas convicções. Meus dias.
Sim, eles são meus - envolvem outras pessoas, é claro, mas ainda assim são meus. Podem até mesmo ser compartilhados, divididos entre as incontáveis pessoas que passam por eles. Mas, para o que me importa realmente, são meus. E eu posso fazer deles o que quiser.
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Paz...
Os dias estão se atropelando... E a hora de seguir em frente e encarar a mudança também. A sensação de impotência e tristeza cedeu lugar a uma ansiedade crescente. Afinal, é uma oportunidade de um novo começo, de tentar ser diferente em tantos aspectos... Uma nova cidade, um novo espaço, novos amigos, novos trabalhos... Posso continuar sendo eu mesma, mas tenho uma chance de provar que posso ser melhor. É hora de dar uma repaginada, esquecer a acomodação, me deslumbrar com coisas novas, descobrir caminhos e horizontes.
Hoje estou em paz. Sei que serei feliz, sempre e em qualquer lugar onde esteja. Porque esse é o meu destino, esse é o meu jeito - não sei ser pessimista durante muito tempo, nem sei ficar de mau humor por mais de algumas poucas horas. E a alegria é contagiante.
Sei viver sozinha e conseguirei driblar a solidão quando ela teimar em me assolar. Saberei construir o amor ao lado de quem me ama - e a quem amo. A vida é muito curta pra nos prendermos a um lugar só - e a hora de soltar as amarras já passou há tempos. Seguirei meu caminho - sempre sabendo que posso contar com pessoas maravilhosas aqui, algumas centenas de quilômetros distante.
Adiós.
Hoje estou em paz. Sei que serei feliz, sempre e em qualquer lugar onde esteja. Porque esse é o meu destino, esse é o meu jeito - não sei ser pessimista durante muito tempo, nem sei ficar de mau humor por mais de algumas poucas horas. E a alegria é contagiante.
Sei viver sozinha e conseguirei driblar a solidão quando ela teimar em me assolar. Saberei construir o amor ao lado de quem me ama - e a quem amo. A vida é muito curta pra nos prendermos a um lugar só - e a hora de soltar as amarras já passou há tempos. Seguirei meu caminho - sempre sabendo que posso contar com pessoas maravilhosas aqui, algumas centenas de quilômetros distante.
Adiós.
quinta-feira, 12 de março de 2009
Freedom
Ser livre, soltar as amarras, desbravar territórios, ultrapassar horizontes, dar a volta ao mundo até o dia voltar pra trás. Ser forte, conhecer a vida, vencer obstáculos, alcançar o longe, envelhecer vivendo. Ser feliz, aprender com os erros, seguir em frente sem olhar para trás. Ser única, ter orgulho de si mesma, fazer algo que realmente importa. Ser confiante, cuidar do próprio nariz, aproveitar o dia. Ser dinâmica, ver a vida com olhos curiosos, aventurar-se no desconhecido. Extrapolar a razão, intensificar emoções, arriscar um pouquinho. Curtir o presente, esquecer o passado, cuidar do futuro. Amar sem limites, viver sem fronteiras. Fazer novos amigos, alçar novos vôos. Todos os dias. Todas as horas. Todos os minutos.
quarta-feira, 11 de março de 2009
Transitoriedade, efemeridade

Mudanças são sempre dramáticas, especialmente em suas antecipações imaginárias. Os pesos se dividem e não há certo ou errado. O melhor e o pior são relativos, as tristezas e alegrias são maximizadas. Decisões nunca são fáceis, principalmente quando requerem urgência, mas são elas que nos fazem crescer.
Dizem que não há crescimento sem sofrimento. Mas talvez essa máxima seja apenas uma forma de aliviar a dor e de justificar as intempéries que a vida nos apresenta, dia após dia. Não sabemos o propósito de tudo e ficamos agindo como se quiséssemos adivinhar o desfecho, procurando a melhor opção para não haver arrependimento.
Sempre ouvi dizer que depois da calmaria vem a tempestade. E que depois da tempestade, vem a calmaria. Pois estou cansada desses ciclos absurdos de opostos, que se alternam cotidianamente, deixando-nos com as mãos atadas e as emoções em frangalhos. Muito riso acaba resultando em muito choro. E muito choro só nos mostra o quanto complicamos nossa existência, colocando impecilhos desnecessários e fazendo vendavais por nada.
No fim, tudo se resolve. E isto foi só pra terminar com mais uma máxima da sabedoria popular.
terça-feira, 10 de março de 2009
Frenéticos

Venda seu produto, venda sua imagem, venda sua casa, venda seu carro, venda seu cachorro, venda o filhote de seu cachorro, venda seu filme, venda seu texto, venda seu trabalho, venda seu sexo, venda suas férias, venda seu lazer, venda seu prazer, venda seu tempo, venda sua vida. A escolha é sua. A única pergunta que fica é: vale à pena?
terça-feira, 5 de agosto de 2008
A menina e seus livros

Minha memória me prega peças diariamente. É mais do que não se lembrar do almoço de ontem. É perder detalhes de minha vida aos poucos, com visões limitadas dos acontecimentos. Geralmente não lembro exatamente de livros ou filmes - apenas da sensação: se gostei ou não, se foram bons ou ruins, se interessantes ou extremamente chatos. E só. Das aulas de biologia, então, mal lembro das subdivisões do reino animal. E cansei de esquecer.
Dizem que recordar é viver. Se essa máxima é verdade, estou com minha existência delimitada por uma névoa que insiste em me envolver. Cansei de esquecer, porque tenho sede de conhecimento. Cansei de esquecer, porque quero aprender cada vez mais. Quero lembrar não apenas das sensações, mas dos momentos. Quero lembrar não apenas do primeiro beijo, mas da roupa que ele estava usando. Quero retomar todos os fragmentos para poder constituir o todo que forma minha vida. Quero ler um milhão de livros. E poder lembrar de suas histórias.
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Um texto interessante
......
...
As idéias estão por demais condensadas para serem novamente liberadas. Necessito urgentemente de um exercício calculado: uma prova de que minha redação não perdeu o tino - e de que eu não perdi o rumo. Estou há muito tempo atrofiada, e meus nervos estão tão relaxados que é difícil tentar me exercitar novamente (em tantos aspectos isso!!!).
De ano em ano pareço sentir esse comixão, essa vontade de colocar meus dedos para digitar freneticamente, mas não quero textos sem sentido. Quero conteúdo. Quero um texto interessante. Não quero novelas melodramáticas. Não quero queixas ou algo excessivamente pessoal. E então desisto.
...
...
...
Silêncio.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Retomada

Estou enferrujada. Mas tentarei...
... deixar os dedos correrem, esquecer o tempo, me libertar de correntes que possam aprisionar meu pensamento. Desafiar a mim mesma e vencer. Esquecer preconceitos, ou ignorá-los. Deixar uma marca. E quem sabe um dia ter forças para revelar pensamentos secretos.
... ser otimista. Descobrir caminhos. Desbravar o desconhecido. E não ter medo. Ter coragem para mudar o rumo. Sair da latência.
... ultrapassar a barreira de apenas existir. Viver. Aproveitar. E lembrar que cada dia pode ser o último. Isso é intensidade. A morte há de ser sempre lembrada, pois senão a vida não faria sentido. É preciso ter consciência da finitude para tornar cada momento eterno e infinito.
... sorrir. Gritar. Amar. Soltar a mente. Ser transparente. Saber que a felicidade está em cada instante, em cada detalhe, em cada amigo, em cada atitude. Nos momentos de sono debaixo da coberta, nas gotas de água da chuva. No anseio pelo mar e na simples recordação de colocar os pés descalços na areia. Ser feliz faz bem.
domingo, 8 de maio de 2005
Esforço

Pensar dói. Sim, pensar doi.
Estamos vivendo a História mastigada. Somos acomodados, nos resignamos às perguntas óbvias e o branco da tela (ou da página) nos enche de pavor. As idéias tendem a se copiar, perpetuando-se a ponto de quase não haver inovação. E a ponto de nem se saber ao certo como inovar.
sábado, 26 de fevereiro de 2005
Pausa
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005
Fuga

É quando eu começo a me ferir, e a ferir meus dedos cansados de digitar e a deixar meu ouvidos entupidos e a engasgar com um mar de lágrimas. É quando tenho vontade de rasgar o verbo e deformar as roupas e me largar em um sono profundo e esquecer de tudo. É quando quero me sentir livre – ao mesmo tempo em que vejo a prisão em que me encontro. Meus pulsos doem, meu corpo dói, minha mente já não respira. O nó na garganta não passa e palpita uma água salgada do canto dos meus olhos que não sei bem explicar por quê. A noite passou lenta, abafada, rasgante. Meu nariz não desentupiu e meus sonhos não vieram.
:::
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2005
Devaneios...
Ainda estou lúcida. Mesmo em meio a tanta desordem, mesmo sem capacidade de raciocínio, mesmo sem conseguir pensar as palavras. Ainda estou lúcida. E preciso repetir isso infinitas vezes para me certificar de que estou certa, de que ainda tenho capacidade para pensar e ler jornais, de que consigo escrever sem que tenha de fazer um enorme esforço. Ainda estou lúcida. Bem menos do que gostaria, bem aquém do que seria necessário, bem além do suficiente. Mas ainda estou lúcida. Ainda vejo as cores ao meu redor (embora o cinza ganhe cada vez mais espaço), ainda tenho um vislumbre do futuro (apesar de meio embaçado), ainda consigo sonhar (embora quase não tenha tempo para isso). Meu sono anda cansado, meus olhos estão fundos, minha mente está uma desordem. Mas ainda estou lúcida. E assim preciso me manter. Preciso vencer a necessidade de descansar e de ter uma vida mais feliz. Ainda estou lúcida. Mas não sei por quanto tempo.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2005
Carrascos de nós mesmos
Com o tempo, a gente percebe que não adianta mais agir como criança e desejar como criança e sorrir como criança.
Com o tempo, a gente se vê só, mesmo no meio da multidão. E esquece as palavras. E esquece as pessoas. E deixa de lado os amigos, porque o trabalho se tornou mais urgente. E deixa de lado a gente mesmo, porque o descanso é mais importante do que o corpo. E deixa de lado os hobbies e as manias, porque dormir é mais importante. E esquece que o sexo é muito bom, porque a cabeça está sempre no dia seguinte.
Com o tempo, a gente deixa de acreditar em frases feitas e esquece que é preciso se esforçar para evoluir. A gente se esquece dos planos e das promessas feitas em cada início de ano. Dos sonhos e das juras de amizade sincera.
E quando menos esperamos, percebemos que estamos grandes, mas pequenos. Seres sem eira nem beira, sós na amplitude de um coração empedrecido.
Com o tempo, a gente se esquece das palavras da mãe e às vezes até mesmo da palavra MÃE. Deixa de lado o amor adormecido do pai.
Aos poucos, a gente percebe tudo isso, mas não há caminho de volta e tentar reconstruir pontes parece um tanto quanto complicado.
Ficamos, então, com as palavras anestesiadas, molengas e enfermas, guardadas no baú de preciosidades medíocres que é a nossa mente. Fica tudo ali, esperando a hora certa para explodir. Uma explosão carregada de culpa, uma espécie de testemunho vão.
Porque, na verdade, a gente já sabe de tudo isso. A gente sabe que a gente é mais importante e que a vida é feita de momentos preciosos. Mas ainda assim seguimos iguais.
Com o tempo, a gente percebe que precisa de espaço e que o conforto dos braços da mãe não é mais suficiente. E daí percebe que tudo o que realmente importa é justamente esse colo e esse carinho incondicional. Mas aí somos "adultos" e precisamos seguir em frente com os planos.
Aos poucos, a gente percebe que a individualidade é mais do que urgente, mas esquece que existem pessoas a quem querer bem. E vai acumulando todos esses déficits em algum lugar, prometendo um dia resolver tudo.
Mas a lista só vai aumentando. E o tempo só vai castigando.
Com o tempo, até o "eu te amo" precisa ser diferente para não ser banal. Ou então precisa ser dito, para arrebentar comportas fechadas há tanto tempo.
Aos poucos, a gente percebe que a vida é muito complicada, mas poderia ser infinitamente simples. Mas aí não sabemos mais como simplificá-la.
Com o tempo, a gente se vê só, mesmo no meio da multidão. E esquece as palavras. E esquece as pessoas. E deixa de lado os amigos, porque o trabalho se tornou mais urgente. E deixa de lado a gente mesmo, porque o descanso é mais importante do que o corpo. E deixa de lado os hobbies e as manias, porque dormir é mais importante. E esquece que o sexo é muito bom, porque a cabeça está sempre no dia seguinte.
Com o tempo, a gente deixa de acreditar em frases feitas e esquece que é preciso se esforçar para evoluir. A gente se esquece dos planos e das promessas feitas em cada início de ano. Dos sonhos e das juras de amizade sincera.
E quando menos esperamos, percebemos que estamos grandes, mas pequenos. Seres sem eira nem beira, sós na amplitude de um coração empedrecido.
Com o tempo, a gente se esquece das palavras da mãe e às vezes até mesmo da palavra MÃE. Deixa de lado o amor adormecido do pai.
Aos poucos, a gente percebe tudo isso, mas não há caminho de volta e tentar reconstruir pontes parece um tanto quanto complicado.
Ficamos, então, com as palavras anestesiadas, molengas e enfermas, guardadas no baú de preciosidades medíocres que é a nossa mente. Fica tudo ali, esperando a hora certa para explodir. Uma explosão carregada de culpa, uma espécie de testemunho vão.
Porque, na verdade, a gente já sabe de tudo isso. A gente sabe que a gente é mais importante e que a vida é feita de momentos preciosos. Mas ainda assim seguimos iguais.
Com o tempo, a gente percebe que precisa de espaço e que o conforto dos braços da mãe não é mais suficiente. E daí percebe que tudo o que realmente importa é justamente esse colo e esse carinho incondicional. Mas aí somos "adultos" e precisamos seguir em frente com os planos.
Aos poucos, a gente percebe que a individualidade é mais do que urgente, mas esquece que existem pessoas a quem querer bem. E vai acumulando todos esses déficits em algum lugar, prometendo um dia resolver tudo.
Mas a lista só vai aumentando. E o tempo só vai castigando.
Com o tempo, até o "eu te amo" precisa ser diferente para não ser banal. Ou então precisa ser dito, para arrebentar comportas fechadas há tanto tempo.
Aos poucos, a gente percebe que a vida é muito complicada, mas poderia ser infinitamente simples. Mas aí não sabemos mais como simplificá-la.
terça-feira, 9 de novembro de 2004
Doce inocência

Engraçado como às vezes nos damos conta de que o tempo não parou e de que não somos mais crianças. Mas o mais estranho mesmo é que não percebemos isso gradualmente: apenas crescemos. Passamos por tantas fases especiais – cada uma com suas peculiaridades – e parece que de todas carregamos algo. Não nos sentimos mais velhos: no fundo, parece que somos os mesmos seres que pouco sabem e que acabaram de começar a viver, com todas as inseguranças e curiosidades.
E a maturidade não nos avisa quando chega – se é que chega. Na verdade, é como se ela fosse imposta a nós por uma convenção que existe há séculos. De repente, nos sentimos obrigados a rir quando queremos chorar ou a sentar de pernas cruzadas quando queremos mesmo é ficar bem à vontade.
Vejo que fiquei adulta quando percebo a cobrança pelos modos que não tenho. Percebo a maturidade a cada vez que meu sorriso maroto não surge no rosto, quando não consigo ver com olhos infantis os problemas que surgem cotidianamente, nas horas em que percebo que tenho medo de perder meu emprego, quando vi que já perdi a inocência de que tudo pode ser comprado "com cheque" e quando lembro que minhas ambições vão muito mais além do que um simples "videogaminho". Era assim que costumava falar quando tinha meus menos de 10 anos. Achava que a vida era muito mais simples.
Pegando emprestadas as palavras de Fernando Sabino, queria mesmo era crescer e me tornar criança.
quarta-feira, 16 de junho de 2004
Do chão ao pó

Não somos feitos da imunda matéria cinzenta que inunda as metrópoles, mas aprendemos a conviver bem com ela e com a poeira constante e baixa. Poeira que corta e desgasta, que enche os pulmões de um ar preto, mas imprescindível. Somos animais, sim. No pior sentido da palavra. Pessoas envolvidas em seus próprios mundinhos, esquecendo que também são matéria orgância, em sua tradução mais simples e pútrida. O cinza é hoje o que ontem era belo. É a tradução da capacidade e do intelecto humanos e da solicitude indefesa do meio ambiente. Mas, em nossa ignorância, apenas damos continuidade à tradição iniciada anos antes de existirmos. Somos animais, sim. Mas continuo dizendo que gosto muito mais das criaturas que chamamos cotidianamente de animais do que dos homens.
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